Tomando como base as leituras
dominicais do domingo, dia 31/03/2019, temos como pano de fundo, em primeiro
lugar, lógico, a Quaresma. Esse tempo de conversão e mudança de comportamento
nos convida a repensar a nossa relação com o Pai, na pessoa de Jesus Cristo.
Se iniciarmos pela primeira
leitura, vamos ter um trecho do Livro de Josué (Cf. Js 5,9a.10-12), Josué é o
sucessor de Moisés a frente do povo que havia saído do Egito em direção a Terra
Santa! Ele lembra que a ação do Senhor livra o povo de Israel da desonra do
povo, desonra essa de ser obrigado a servir um rei injusto. Assim, por força da
vontade de Deus, o povo deixa de ser escravo, pois o Senhor oferece a vida e a
possibilidade de vivermos (a todos nós). Entretanto, isso não é simplesmente
uma oferta, mas um exemplo a ser seguido.
O povo, ao sair do Egito ficou
extremamente assustado. Muitos começaram a colocar em dúvida a liderança de
Moisés e até mesmo a força do Senhor! Para provar que o Senhor que havia os
tirado do Egito, Ele oferece ao povo o mana (uma espécie de pão), mas mesmo
assim, quando Moisés sobe no Monte Horeb para receber a Lei (Decálogo = Dez
Mandamentos = Dez Palavras = Lei) o povo, assustado com a demora (Moisés teria
ficado no monte durante 40 dias) acredita que Moisés estivesse morto e resolve
confeccionar um deus novo para eles, um bezerro de ouro (cf. Ex 32). O Senhor,
nesse momento, transfere esse “povo de cabeça dura” para Moisés... Pois foi
Moisés que os tirou do Egito (Cf. Ex 32, 7.11-14). Moisés mostra ao Senhor que
Ele mesmo havia escolhido esse povo... Javé recebe esse povo, mas não sem
castigo... Moisés determina a morte de todos os envolvidos no culto ao bezerro
de ouro e mais ou menos 3000 homens são mortos. E o castigo não para por ai...
nenhuma pessoa que saiu do Egito chega a Terra Prometida! Todos morrem,
inclusive Moisés. Quem chega a essa terra são os seus descendente. E qual a
relação do Pai para com eles? Ao chegarem e se apropriarem da terra, o Senhor
parou de prover o sustento para eles. A partir daí, eles vão trabalhar para
obter o próprio sustento. Não mais como escravos, mas como pessoas livres, que
devem valorizar a liberdade! O Senhor é injusto, muitos podem pensar, mas Ele
não é. O Homem não é apenas mais uma criatura. É o parceiro na construção do
mundo (Cf. Gn 1, 26s).
Assim, cada individuo é convidado a encontrar a sua
realização, para tornar-se ferramenta do Senhor para a construção da nossa
sociedade. Esse pensamento acaba-se ligando a segunda leitura, onde Paulo, ao
escrever para a comunidade de Corinto (cf. 2Cor 5, 17-21) convidando a cada um
para que descubra que Cristo renova todas as coisas, pois ele nos convida a nos
aproxima do Pai.
Assim, nossas comunidades devem ser fonte de perdão e
redenção, pois cada um dos cristãos é convidado a viver o perdão! Afinal, é o
próprio Cristo que nos convida a viver a Regra de Ouro presente no Evangelho de
Mateus, no Sermão da Montanha e que nos oferece a visão e a proposta de sermos
pessoas diferentes, dispostas a receber do irmão apenas aquilo que oferecemos
(Cf. Mt 7, 1s). Assim, o texto convida toda a comunidade a mudar de posição,
não oferecendo ou cobrando algo mas encontrar o que nos une!
Esse convite é feito para todos,
em especial para nós pecadores, que somos convidados a mudar de vida, e a exemplo
de Jesus que, mesmo sendo judeu, oferece a salvação a todo o mundo.
A grande dificuldade da nossa
sociedade é não saber respeitar os dons oferecidos pelo Senhor, e querer sempre
o que não temos. Olhamos, com o olhar do pecador, com o olhar de Adão e Eva que
comeram da fruta da sabedoria e passaram a se achar deus... nós temos, claro, o
pecado original, o pecado que nos faz querer ser como Deus, querer substituir e
não imitar o Pai! Esquecemos o que Jesus nos ensina por meio do Sermão da
Montanha (Mt) ou do Sermão da Planície (Lc) e passamos a olhar o cisco do olho
do irmão.
Somos mesmo hipócritas, a exemplo
dos Doutores da Lei e dos Fariseus, pois, amarramos pesados fardos nas costas
das pessoas que frequentam a nossa comunidade, pois nos consideramos como os “donos”
do pedaço (Cf. Mt 23,1-12)! Assim, antes mesmo de pedirmos perdão ao Pai
devemos nos prontificar a cumprir a promessa oferecida a Ele por meio da oração que o Cristo nos ensinou, o
Pai Nosso!
Afina, ao rezarmos o Pai Nosso
estamos nos prontificando em aceitar o perdão na medida em que perdoamos (cf.
Mt 6, 22) e assim, complementando esse pensamento, vamos de encontro a aqueles
que ofendemos para obter deles o perdão (Cf. Mt 5, 23s).
O evangelho deste domingo é a
Parábola do Filho Pródigo. Esse texto já esta enraizado na nossa mente, mas
será que este plantado no nosso coração?
O texto mostra os dois filhos, o
mais novo, eufórico, ousado que busca novas experiências. E o mais velho,
contido e obediente! Alias não é a única vez que Jesus compara dois irmãos...
mas isso fica para uma outra oportunidade.
O texto do filho pródigo nos
convida a pensar nossa relação social e comunitária. O filho mais novo leva
metade do patrimônio do pai. Gasta tudo de forma desenfreada! Quando se
descobre no sofrimento percebe a desilusão!
Mas como pode se levantar? Como
ele, tão inteligente, chegou a essa situação? Como se recuperar? Todas as
respostas passam pelo pai... o pai oferecia aos empregados condições dignas de
vida, algo que ele não encontrou fora do lar. Assim, resolve voltar e
reencontrar com o pai. Pedir perdão e colocar-se humildemente como empregado!
Assim, vamos buscar encontrar o amor de Deus, representação do pai.
Afinal, somos frágeis, precisamos
voltar ao Pai e reconciliar-se com Ele. E Ele, esta disposto a nos perdoar?
Claro. Deus é Amor (Cf. I Jo 4, 8)! E sendo amoroso Ele este pronto a nos
perdoar! Assim, ao sentir nosso arrependimento Jesus abre as portas para nos
receber e quando mudamos Deus nos oferece o que tem de melhor (o anel lembra a
aliança)!
E o irmão mais velho? Será que ao
percebermos o retorno do irmão mais novo, estamos dispostos a aceitá-lo de
volta?
Voltamos à situação anterior... Ao
julgamento! É fácil apontar o erro dos outros. Viver em comunidade é construir
um relacionamento com o irmão. Na teologia cristã, o irmão mais velho é a
representação do povo judeu, o povo mais antigo, que já caminha com Javé a
séculos. Os cristãos são o filho mais novo, que levaram a Herança (Jesus
Cristo) à destruição e depois voltam arrependidos!
Mas podemos nós também vestir
essa “carapuça”. Quantas vezes não olhamos torto para o irmão que esta chegando
à nossa comunidade? Nesse prisma, somos nós que assumimos o papel de filho mais
velho, rabugento, encrenqueiro. Precisamos rever a nossa posição e construir
uma verdadeira Comunhão, que no seu termo original significa partilha. Não
podemos esquecer que não somos os donos da comunidade, ao contrário, somos
membros dela! Tijolos que constroem as paredes, não dos templos, mas da vida
cristã. Jesus vem nos lembrar que o são não precisa de médico e o puro não
precisa de redenção (Cf. Mc 2,17)!
O texto nos deixa sem saber se o filho mais velho entra ou
não na festa. Mas Jesus faz isso intencionalmente para que reflitamos, qual o
nosso papel na comunidade?
A comunidade é o corpo místico de Jesus, e nós estamos dispostos a abrir mão da nossa ganância
para viver o bem do Senhor? Vamos aceitar o filho mais novo e recebê-lo com o
amor que o Pai espera?
O convite é claro, nós devemos aceitar o filho mais novo, e
indo alem disso, conduzi-lo para o lugar de honra, cheios de carinho, sem medo
e sem remorso colocá-lo no centro da festa!