I. Bíblia:
Conceitos
Gerais:
Origem
da Palavra:
A palavra Bíblia, designa as Sagradas Escrituras, os
textos consagrados pelos judeus como sagrados. Ela foi traduzida em 1685
línguas diferentes, antigamente somente existia em Grego, Aramaico e Hebraico.
O chamado povo de Deus, é composto inicialmente dos povos descendentes de
Abraão. Abraão, vivia na cidade de Ur,
na Mesopotânea, que ficava entre os rios Tigre e Eufrates (onde hoje fica o
Iraque). Abraão e seus parentes, saíram da cidade de Ur e deslocaram-se para a
cidade de Harã. Naquele tempo a mudança era feita com toda a descendência e
todos os bens. O pai de Abraão era Taré. da cidade de Harã, Abraão e sua esposa,
Saara, mudaram-se para Hebron próximo
ao lago da Galiléia.
A palavra Bíblia é de origem grega, e significa
Biblioteca, ou seja, coleção de Livros. A nossa Bíblia é composta de 73 livros,
que compõem o Cânon (Lista oficial de livros), sendo 46 do Antigo Testamento e
27 do Novo Testamento. Entretanto, existem outras listas (Cânon) diferentes da
nossa (Alexandrina), sendo que o Cânon Judaico (usado pelos protestantes e
evangélicos) é um dos mais conhecidos, e tem 7 livros a menos que o cânon
Alexandrino. O Cânon Judaico, rejeita todos os livros que justificassem a fé
dos Sauduceus (conhecidos como doutores da Lei) e foi elaborado pelos Fariseus.
Forma
que chegou até nós:
A Bíblia que
chegou até os nossos dias é originária de cópias, originalmente escritas em
pergaminhos ou papiros, que eram costurados um nos outros e enrolados (Cf. Lc
4, 17). A pessoa deveria procurar o texto que desejava e então le-lo. Mais
tarde, no século XIII d.C. o Cardeal Estevão Langton, dividiu a Bíblia em
capítulo, para facilitar a consulta e a procura de textos. Em 1528, o frade
Sante Pagnine dividiu o Antigo Testamento em versículos e em 1550, o tipografo
Robert Estevão dividiu o Novo Testamento em Versículos.
As Bíblias eram
copiadas por Monges copistas, que muitas vezes alteravam o texto, valorizando
pontos que iam ao encontro das doutrinas católicas.
Diferenças
entre o Cânon Judaico e Cânon Alexandrino:
A diferença
entre a Bíblia Católica e a Bíblia Protestante, é que a segunda segue a divisão
bíblica hebraica. Nessa versão não existem os seguintes livros: Judite, Tobias,
I e II Macabeus, Baruc, Eclesiástico (ou Ben Sirac ou Sirácida) e Sabedoria. Na
Bíblia Católica esses livros são chamados de Deutero Canônicos, considerados
canônicos após o concilio dos Judeus (século II d.C.). O cânon Hebraico foi
definido pelos fariseus, e estes apenas consideraram Canônico, aqueles livros
que justificavam as suas doutrinas (Cf. PCB-AT Sirácida, as raízes na tradição
- Missiale, Antonino - EP-1993) e é marcado pelos textos escritos em aramaico
ou hebraico.
O Cânon
Septuaginta, ou Alexandrino, também conhecido como dos LXX (Setenta em números
romanos), tem os livros escritos (traduzidos) em grego. O rei Ptolomeu II
Filadelfo (285-287 A.C.) solicitou ao sumo Sacerdote Eliazar de Jerusalém o
envio de sábios a fim de traduzirem os livros de Moisés para o grego. Eliazar
mandou 72 varões que em 72 dias executaram a tarefa. Por causa dos 72
tradutores (simplificado em 70), fala-se até hoje da tradução dos setenta ou em
latim "Septuaginta".
A versão
Vulgata, foi traduzida para o Latim por São Jerônimo (350-420 d.C.) a partir do
Cânon Alexandrino e é muito popular, divulgada como uma Bíblia de Oração (a
versão da Bíblia Ave Maria é uma das que seguem essa versão).
Existem outras
versões de menor importância, da Bíblia, tais como:
- Aquila Século II d.C., Símaco Século II d.C.,
Teodocião Século II d.C., Aramaica Século II a.C. (falavam, mas só chegou
depois de Cristo), Cópta Século III d.C., Gótico Século IV d.C., Georgicana
Século V d.C.
Divisão
da Bíblia:
A Bíblia se
divide, primeiro em duas grandes partes, o Antigo Testamento e o Novo
Testamento. O Antigo Testamento (não é velho – velho é algo que perdeu o valor
ou a importância) mostra o povo antes do nascimento de Jesus. O Novo Testamento
é sobre os relatos da vida de Jesus e as comunidades que vieram depois.
Depois,
dividimos cada testamento (que tem como tradução do Aramaico aliança), em
livros, conforme o autor (ou pseudo autor). Cada livro é dividido em capítulos
e cada capítulo é dividido em versículo.
Para facilitar,
criou-se uma nomenclatura, que é composta pelo nome do livro, seguido do
capítulo e dos versículos, conforme podemos ver abaixo na Regra Geral:
As citações
bíblicas são indicadas pela abreviatura do nome do livro, seguido por seu
capítulo e versículo inicial e a indicação do capítulo e versículo em que
termina o teto.
Nome do Livro:
é indicado por 2 consoantes - Ex. Mt = Mateus.
Vírgula: separa
capítulo de versículo - Ex. Mt 3,5.
Ponto: separa
versículo não continuo - Ex. Mt 3,3.8.
Traço: separa
versículos contínuos - Ex Mt 3, 3-8.
Ponto e
Virgula: separa grupos de capítulos e
versículos ou livros - Ex. Mt 3,5; 23,7; Jr 5,2.
Letra
"a" : Indica a primeira parte de um versículo - Ex. Mt 3,5a
Letra
"b" : Indica a segunda parte de um versículo - Ex. Mt 3,5b
Letra
"c" : Indica a terceira parte de um versículo - Ex. Mt 3,5c.
Letra
"s": indica o versículo seguinte - Ex. Mt 3,5s.
Letras
"ss.": Indica versículos seguintes, do indicado até o fim do
capitulo. Ex. Mt 3,5ss.
Indicação Cf. -
Conforme ou confira em ... - Ex. Cf. Mt 3,5.
Observe também
que certas pessoas (ou comunidades) usam o símbolo : no lugar da virgula. Então, a citação que usamos como exemplo,
ficaria assim: Mt 3:5.
Divisão
do novo testamento:
O Novo
Testamento, representa mais ou menos 1/3 das Sagradas Escrituras, e é composto
de 4 Evangelhos (Oficiais), Marcos, Mateus, Lucas e João, um Evangelho da
Comunidade (Atos dos Apóstolos) um conjunto de 21 Cartas, das quais 14 são
tidas como de Paulo, e 7 são chamadas de cartas Católicas (Universais) e um
Apocalipse, que embora muitos achem que fala do fim do mundo, é na realidade um
relato de amor e de fé, revelada por Deus aos Homens por meio de Jesus (Cf. Ap
1).
II. Introdução ao
Evangelho de Mateus:
Por
que é Sinótico?
Sinóticos é
todo o texto que não é igual, mas tem um sentido similar. Os evangelhos
sinóticos não são iguais entre si, existem diferenças marcantes mas, seguem o
mesmo roteiro básico. Os evangelhos sinóticos são Marcos, Mateus e Lucas (na
ordem cronológica provável).
Quais
as fontes utilizadas pela comunidade de Mateus?
Os evangelhos
de um modo geral, fizeram uso da mesma fonte, pequenas cartas escritas entre
pessoas que conviveram com Jesus e traziam em seu conteúdo as palavras do
Mestre. Essa fonte é chamada de fonte Q. Outra fonte, conforme alguns
estudiosos é chamada de fonte S. Alem disso deve ter tido, ainda como fonte, o
chamado Proto-Evangelho de Marcos (Primeira versão do Evangelho de Marcos).
Quem
é Mateus?
No popular,
Mateus seria um dos doze discípulos de Jesus, o cobrador de impostos que se
torna seguidor de Jesus (Cf. Mc 2, 13-17; Mt 9, 9-13; Lc 5, 27-32). Dentro dos
estudos do Evangelho de Mateus, o evangelho teria sido escrito por uma
comunidade exilada na região da Síria.
Como
sabemos que é uma Comunidade de judeus?
Pela estrutura
dos escritos. No Evangelho de Mateus, Jesus é colocado como o “novo Moisés”, e
o livro escrito de forma a ser a nova Lei (Pentateuco [Gn, Ex, Dt, Lv e Nm]) e
nos leva ao caminho do Novo Êxodo. O livro de Mateus procura colocar todos os
temas como sendo judaicos. Por isso a anunciação se dá a José e não a Maria,
como ocorre na anunciação do evangelho de Lucas pois esse escreve para uma
comunidade de gentios (não judeus).
Qual
a “face” do Jesus de Mateus?
Mateus nos
coloca o Jesus presente, é o Deus conosco (Emanuel), sempre presente na vida do
dia a dia. Lembra a teofânia do Antigo Testamento, quando Deus caminhava junto
com o povo na saída do Egito.
Pentecostes
e Assunção?
No livro de
Mateus, Jesus não “entrega o Espírito Santo” aos discípulos, pois permanece com
eles (e conosco – Emanuel) até o fim dos tempos. Assim sendo, não fala de
assunção ou de pentecostes.
Como
é a Comunidade de Mateus?
Aparentemente a
comunidade de Mateus é composta de judeus que tornaram-se cristãos, e por isso
foram expulsos das sinagogas. Vivem como estrangeiros em terras pagãs. São
pobres, sem terra ou emprego, e vivem sob o estigma da fuga. Após a guerra
Judaico Romana (64 a 70) que culminou com a destruição do Templo de Jerusalém,
e a destruição da cultura judaica (desapareceram vários grupos importantes,
como os sacerdotes, doutores da lei, levitas e essenios), sobrando basicamente
os fariseus, que comandavam as sinagogas. Para os fariseus, a queda do judaísmo
está diretamente ligada a sua benevolência para com os cristãos, em especial os
helenistas (de origem grega), por serem mais brandos na interpretação da Lei.
A religiosidade
judaica saiu do Templo para a Sinagoga. Os cristãos, inicialmente, viviam sua
fé na Sinagoga, mas com a guerra e a perseguição contra os cristãos
(especialmente os helenistas – que tem a cultura grega) passaram a vive-la nas
casas.
Poucos estudos
se preocuparam em mostrar a situação aproximada das comunidades, as quais o
Evangelho se destinava. Essa omissão dificulta a compreensão do próprio
evangelho e pode passar a idéia de que o escrito caiu do céu. Todavia, se
tentarmos, ainda que timidamente, levantar algumas dificuldades e conflitos
dessas comunidades, então o texto adquire nova luz e passa a falar face a face
com as pessoas de ontem e de hoje. Quais teriam sido os maiores problemas? Eis
algumas indicações de como eram os
cristãos das comunidades de Mateus:
- Migrantes: As comunidades de Mateus
eram compostas de judeus migrantes. Pouco antes do ano 70, quando o general
Tito arrasou Jerusalém e o Templo, muitos judeus abandonaram Jerusalém (e a
Judéia), migrando para o Norte. Alguns grupos foram parar nas redondezas de
Pela, na Decápole, do outro lado do Jordão, território pagão. Outros se
afastaram ainda mais, indo estabelecer-se no limite norte da Galiléia,
fixando-se na Siro-Fenícia (território pagão); outros ainda foram alem, refugiando-se
nos arredores de Antioquia da Síria.
Esses grupos migraram pelos mesmos
motivos que hoje muitos povos abandonam sua terra natal, pelo fato de terem
perdido a sua terra, em busca de trabalho, e melhores condições de vida.
Acrescentam-se ao caso das comunidades de Mateus, as dificuldades econômicas
decorrentes da pressão do império Romano e o medo de morrer diante da iminente
destruição de Jerusalém.
Os judeus que
migraram para a Siro-Fenícia e a região da Antioquia da Síria começaram a
formar as comunidades às quais pouco mais de 10 anos após a sua instalação, é
dirigido aquele que conhecemos como o Evangelho de Mateus (escrito após o ano
80). Certamente essa comunidade já conheciam o evangelho de Marcos, mas, para
eles, Jesus deveria ter um rosto próprio. Buscavam um Jesus encarnado no mundo
da migração, seus conflitos e esperanças. De fato Mateus é o único evangelista
a mostrar desde o inicio, um Jesus migrante (2, 13-23), aquele que inicia nova
história e novo êxodo. A fuga para o Egito e o retorno de lá recordam as
comunidades de Mateus em suas andanças
pela sobrevivência.
- Sem Terras: Migração e falta de terra
são duas realidades que freqüentemente se cruzam. E no caso da comunidade de
Mateus, não foi diferente. Rasteando-se os textos próprios da comunidade,
podemos ter uma visão rápida de como viviam esses cristãos migrantes. A
preocupação pela terra, ocupa espaço importante, sobre tudo nas
bem-aventuranças (5,1-12) e na parábola dos trabalhadores da vinha (20, 1-16).
As
bem-aventuranças tem como contexto próximo uma montanha à qual Jesus sobe com os discípulos. Mas num circulo mais amplo é seguido por multidões de
pessoas. Sua fama chegou a Síria (4,24a; é a região em que se instalaram as
comunidades de Mateus), e entre os que o seguem há gente de Jerusalém e da
Judéia (4,25; lugar de onde saíram como migrantes) e também da Decápole e do
outro lado do rio Jordão (4,25; lugar para onde migraram muitos judeus
cristãos). Mateus pôs entre os ouvintes das bem-aventuranças também as
comunidades dele. Por trás das bem-aventuranças, portanto, temos um retrato da
situação social das comunidades migrantes de onde nasceu o Evangelho de Mateus.
Para compor
esse retrato, tomemos a primeira e a oitava bem-aventuranças: “Felizes os
pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”; “Felizes os que são
perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu” (5,3.10). As comunidades de Mateus são compostas
de pobres e de perseguidos por causa da justiça. Inútil pôr panos quentes na
expressão “pobres de espirito”, como por exemplo, se um latifundiário pudesse
estar entre eles (são “pobres EM espírito” e “não pobres DE espírito” - o termo
quer dizer, pessoas sem apego material). Por trás da expressão “pobres em
espírito” está a palavra hebraica ‘anawim, que quer dizer
economicamente empobrecido. As duas bem-aventuranças formam uma unidade por
terem a mesma conclusão: o Reino do Céu é deles (no presente e não no futuro,
pois a perspectiva não é escatológica, mas sim colocar o Reino do Céu, aqui na
Terra, e hoje). De forma que podemos unir as duas numa só: “Felizes os pobres
em espírito e os perseguidos por causa da justiça, por que deles é o Reino do
Céu”.
Isso não quer
dizer que os pobres da comunidade de Mateus estivessem felizes por estarem na
miséria. Eles são pobres, que amam a justiça e lutam por ela. E por quererem
uma sociedade justa é que são perseguidos. Jesus lhes garante que Deus não fica
indiferente à luta deles. Pelo contrario, o Reino esta sendo forjado a partir
disso. Sua fome e sede de justiça
(Quarta bem-aventurança, 5,6) serão saciadas quando o Reino que lhes foi dado, se manifestar em todo o seu vigor.
Em síntese, o Reino pode ser traduzido como a ausência de injustiças, a
eliminação total delas.
A segunda e a
terceira bem-aventuranças são muito importantes para o perfil das comunidades
de Mateus: Felizes os aflitos, porque serão consolados”; “Felizes os mansos,
pois possuirão a Terra” (5,4-5). Ambas estão ligadas ao salmo 37, que é
basicamente um salmo da luta pela terra (Cf. Sl 37, 3.9.22.29.34). Esses
aflitos e mansos, são os sem-terra do tempo de Jesus, e os sem terra da comunidade
de Mateus, que viviam nas regiões da Siro-Fenícia e da Síria. Eram migrantes
sem-terra. Portanto as palavras mansos e aflitos, pode ser colocadas como
afligidos e despossuídos. Afligidos por serem migrantes que sonham ter um
pedaço de terra; despossuidos por ainda
não terem (ou por terem perdido) uma
terra onde morar. O Sl 37, 11 é dedicado aos injustamente despossuídos (e que
tem outros contatos com várias dessas
bem-aventuranças). O salmo se reza no contexto da partilha ideal da terra (Js
12-21) e do injusto açambarcamento.
A quinta, sexta
e sétima bem-aventurança (5,7-9) mostram que as comunidades de Mateus tem
outras características bonitas: são solidárias entre elas (misericordiosos),
mantêm firmes o ideal de justiça (puros de coração) e sonham com uma sociedade em
que haja vida, bem estar para todos (promoção da paz/Shalom). Não obstante os
conflitos, pobreza, aflição, amansamento (ou seja todas as formas de exclusão),
essas comunidades sabem se ajudar solidariamente enquanto sonham e geram o
novo, a promoção da paz/Shalom.
- Desempregados: Se não tinham terra
para trabalhar, como viviam esses migrantes afligidos e despossuidos? A
parábola de 20,1-16 nos ajuda a entender o fenômeno. Mas é preciso entender que
Jesus contou as parábolas olhando a realidade do povo.
A parábola
mostra uma realidade cruel: de um lado o latifúndio; do outro o desemprego. O
latifúndio aparece por trás da preocupação do patrão que vai cinco vezes na
praça para encontrar trabalhadores.
Entender como o
povo de Israel chegou ao latifúndio, não é fácil, mesmo porque eles “dividiram
a terra” entre as tribos de Israel. Concluímos que o processo de latifúndio foi
lento e complicado. Aqui é suficiente constar a dura realidade: todo judeu
sonhava em ter um pedaço de terra para plantar e viver, e esse ideal foi
abortado. Terra era (e ainda é) sinônimo de vida. Acontece que a ganância tomou
conta de tudo, e o que se constata na parábola é o seguinte: muita gente perdeu
a terra e migrou para as cidades maiores à procura de trabalho (é sem dúvida o caso
das comunidades de Mateus, que migraram da Judéia para a Siro-Fenícia e a
Síria). Numa sociedade rural e artesanal como a daquele tempo, restava a esses
desempregados uma só saída: fazer bicos nas lavouras dos latifundiários em
época de colheita. Tornaram-se trabalhadores sazonais.
Notemos um
detalhe na parábola. O patrão pergunta ao ultimo grupo de pessoas que encontra
(o das 17 horas): “Por que vocês estão ai o dia inteiro desocupados?” (V.6). E
a resposta é muito clara: “Porque ninguém nos contratou.” (V. 7). Desocupados,
e não contratados. Eis a situação de muitas pessoas das comunidades de Mateus.
Não estavam desocupados por capricho, nem nasceram decididos a não trabalhar,
com vocação para a vadiagem. Não. Eram migrantes, sem terra, trabalhadores que
inchavam a praça da cidade à espera de alguém que lhes desse algo para fazer...
Perseguidos: O tema da perseguição
aparece com certa freqüência em Mateus. Da
origem dessas perseguições,
podemos identificar pelo menos dois focos. O primeiro já está esboçado,
é a situação dos migrantes, sem terra e sem trabalho. A luta pela sobrevivência
e a esperança de um mundo igual não os deixa morrer a mingua. Lutam, resistem,
organizam-se e incomodam. Claro, os grupos sociais que pautam sua vida pela
concentração tem duas preocupações, a primeira é ter cada vez mais. A segunda é
preservar a riqueza que vai sendo acumulada. Os meios para se conseguir isso
são a exploração, para ter mais e a violência para defender o que foi ajuntado.
E ai surgem os conflitos. Voltemos às bem-aventuranças (5,1-12). Elas tem como
pano de fundo o Sl 37 (o salmo dos sem terra). Por trás de cada uma delas
nota-se um foco de tensão que às vezes explode num conflito; pobres, afligidos,
despossuidos, famintos e sedentos de justiça, perseguidos por causa da justiça, caluniados por causa
de Jesus. Essas coisas vem da realidade hostil em que vivem como migrantes, sem
terra e desempregados. Além disso deve-se supor a ganância do império romano, a
indiferença ou hostilidade das pessoas do lugar (Sirio-Fenícia e Síria), como
costuma acontecer em relação a
estrangeiros.
O outro foco de
perseguição vem da parte das lideranças judaicas. Não nos esqueçamos de que as
comunidades de Mateus compunham-se de judeus. Após a destruição do Templo e da
cidade de Jerusalém pelos romanos (ano 70), o Judaísmo oficial tenta se manter
de pé sobretudo graças aos esforços das lideranças (entre elas os fariseus e
doutores da Lei). Os cristãos das comunidades de Mateus passam a ser vistos
como inimigos e, aos poucos, são perseguidos (esse tema aparece fortemente no
evangelho de João, escrito depois de Mateus).
Percorrendo
Mateus, encontramos várias referencias
a esse tema (cf. Por exemplo 10, 16 ss.), mas é no capítulo 23 que estão
condensados os 7 “ais” contra os fariseus e doutores da Lei, pilares do
Judaísmo oficial (o ultimo desses “ais” fala do assassinato dos profetas). Os
cristãos das comunidades de Mateus se interrogam a respeito disso, pois a
situação é dramática. Alem de estrangeiros, despossuidos e sem ocupação fixa,
são perseguidos exatamente pelos de sua raça, por causa de um judeu
chamado Jesus. Estariam enganados? Estariam seguindo a pessoa errada?
Seria Jesus de fato, o Messias? Vale a pena ficar com Ele?
Uma das
preocupações de Mateus é ir ao encontro dessas questões. Entende-se então por
que esse evangelho inicia-se com a genealogia (1,1-16)
que tem dois pilares importantes: Abraão, a quem foram feitas as promessas, e
Davi, o rei ao qual foi prometido um
herdeiro no trono, para sempre. Além disso, Mateus é o único a mostrar
insistentemente que Jesus cumpre as promessas (cf.1,22; 2,5-6.15.17-18.23;
4,14-16).
Desanimados, fechados, preocupados com o
fim: Evidentemente o desânimo tomava
conta das comunidades. De fato, os migrantes, sem-terra, sem trabalho e
perseguidos precisam de ânimo redobrado para conservar as esperanças e cultivar
as utopias. O evangelho de Mateus torna-se então uma espécie de reserva de
energias e de resistência contra todos esses obstáculos. Cá e lá são lançadas
sementes na esperança. Nesse contexto as parábolas de Mateus funcionam como
fogo que aquece e alumia (13,1-9.24-30.31-32.33.44.45-46). Lida com esse
enfoque, a parábola do semeador, toma um sentido novo. Muitas das sementes são
perdidas, à beira do caminho, entre as pedras, entre os espinhos... dando uma
idéia de que o trabalho é inútil, que o Evangelho é uma semente perdida... mas
o desfecho da parábola, com a semente que cai em solo bom, produz muito mais
que as melhores expectativas do agricultor da época, produzindo cem, sessenta e
trinta, percentagens que jamais seriam alcançadas nos terrenos acidentados da Palestina. A luta, portanto, vale a
pena e será bem sucedida.
Outra questão
dizia respeito ao fechamento da comunidade, uma tendência de imitar aos
essenios (ver os pergaminhos do Mar Morto) e os próprios fariseus. Ser
solidário, não significa fechar-se num circuito, em relações sem risco, sem se
contaminar com o mundo exterior. Só que os cristãos não deveriam ser fechados
ao mundo, mesmo sendo perseguidos, desanimados, e sem perspectivas de melhora
até mesmo no campo do trabalho, deveriam estar abertos ao que há de bom nas
outras realidades e culturas, vendo o mundo não como algo mau, capaz de poluir
e contaminar. Ao longo desse evangelho encontramos Jesus que não se restringe
aos judeus, pelo contrario. É o que pode constatar do inicio ao fim: as
primeiras pessoas que vem lhe visitar e render graças, são os reis magos
(pagãos), e o evangelho termina com uma determinação, uma ordem bem clara: “Vão
e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos...” (28,19). O Jesus
de Mateus impele as comunidades a se relacionar positivamente com o mundo, a não ter medo do diferente. É o que pode notar, por exemplo nos
milagres dos capítulos 8 e 9, quando Jesus atende a todos, não crê no risco de
se contaminar em contato com os pagãos. O mesmo pode-se dizer da mulher
cananeia (15,21-28), uma conterrânea das comunidades de Mateus: com sua fé e
esperteza consegue dobrar a Jesus e seus discípulos, que nesse episódio, se
mostram muito fechados em seu mundo e sua raça.
E finalmente
temos as preocupações com o fim dos tempos. Eles ficavam preocupados com o fim
dos tempos, achando que a volta de Jesus seria muito em breve. E essa
expectativa, paralisa as comunidades. Pois se o fim e iminente, para que eu
preciso trabalhar? Nós, não precisamos nos preocupar com o quando o mundo vai
terminar, apenas devemos ter uma visão de que o Reino de Deus deve ser
implantado na Terra. Mateus se preocupa pacientemente em iluminar essas
questões, mas não para responder quando e como, o que seria impossível. Sua
visão é positiva e estimula as comunidades a se empenharem criativamente até o
final dos tempos. É disso que fala a parábola das 10 moças (25,1-13) e a dos
talentos (vv. 14-30), próprias de Mateus. Para reforçar essa idéia, mostra que
o desfecho de tudo (juízo final, ou dia de Javé) terá como critério de
julgamento a prática da justiça, característica de Jesus nesse evangelho, e
mística das comunidades de Mateus (cf. 25, 46 b - “Os justos irão para a vida
eterna”).
Divisão
do livro:
O livro de
Mateus divide-se em 5 livrinhos (lembrando o Pentateuco). Esses livrinhos são
divididos em duas partes, uma parte que é narrativa e a outra é um discurso.
Com a chave da
justiça, até mesmo os textos aparentemente menos importantes, tomam uma nova
luz. É o caso, por exemplo, da genealogia (1,1-16). São possíveis muitos
enfoques, por exemplo como Abraão e Davi estão relacionados com a justiça, o
que representava a justiça para eles, etc. Chama a atenção de várias mulheres:
Tamar, Raab, Rute, Betsabéia (mulher de Urias). Todas estrangeiras (como as
comunidades de Mateus, hostilizadas na terra estrangeira, por causa da fome e
sede de justiça). Mas todas elas, ao seu modo estiveram comprometidas com a
causa da justiça. Mateus minimiza a “moralidade” delas (Tamar fingiu-se de
prostituta [Gn]; Raab, o era; Rute arriscou tudo indo a eira de Booz;
Betsabéia, foi violentada por Davi [o rei Davi, determinou que o marido dela,
Urias, fosse para a guerra, e que de lá nunca voltasse, para que ele pudesse
ficar com a mulher dele]) para salientar o seu compromisso e sua luta com a
justiça. Jesus, garante Mateus, poderia sentir-se orgulhoso de ter tais
mulheres entre os seus antepassados. Supera-se pois, aquela visão antiga de ver
essas mulheres como pecadoras. São, isso sim, amantes da justiça. A luz dessas
mulheres comprometidas com a justiça vê-se melhor a coragem e a ousadia da
mulher cananéia (15,21-28).
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Narrativa
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Discurso
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19-23 - O Reino é para todos
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24-25 - O julgamento destroi a
sociedade injusta.
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13,53-17,27 O seguimento do Mestre da Justiça.
|
18 A justiça do Reino.
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11-12 A Justiça do Reino entra em choque.
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13, 1-52 Parábolas - A justiça do Reino vai vencer.
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8-9 A justiça do Reino produz sinais concretos
(Os milagres).
|
10 Os colaboradores para a justiça do Reino.
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3-4 Com Jesus, o Reino chegou.
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5-7 O Reino é a Justiça que Liberta.
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Introdução: 1-2
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Jesus é o Rei que vai fazer
justiça.
|
A
violência hoje e a lição do Evangelho de Mateus:
O povo que compunha
as comunidades de Mateus nos legou algo importante, a lembrança que Jesus está
vivo e nosso meio (Cf. Mt 28, 16-20) e por isso nós não podemos desistir da
luta (Cf. Mt 20, 7-8).
Ninguém fala que a
vida é fácil, pelo contrário, é difícil mas devemos permitir que Jesus permeie
a nossa vida e permita que implantemos o reino (Cf. Mt 5, 3.10) com um coração
pobre e justo.
A violência de hoje
é igual a violência dos anos 80-100, decorrente de injustiças econômicas,
preconceitos e ganância, por isso, devemos olhar o evangelho com os olhos da
justiça e o coração cheio de fé.
Por isso, nós somos
convidados a semear o reino na nossa vida e na nossa sociedade. Mas onde nós o
semeamos? Será que é na beira do caminho? Entre as pedras? Entre os espinhos?
Ou em solo bom? Onde sou cristão?
As perguntas indagam
a nossa postura, pelo batismo, somos propriedade de Cristo (cristãos) e assim
sendo, devemos semear o reino em todos os locais, não como fanáticos, que
respiram a religião, mas como seres humanos, que cometem erros, mas por serem
criados a imagem e semelhança de Deus, também são santos.
Acabar com a
violência é uma utopia (sonho) que não vamos resolver enchendo os presídios,
mas semeando o amor!
Viver
bem as bem-aventuranças:
O Sermão da Montanha
(Mt 5-7) é o centro do evangelho de Mateus, algo como um resumo e inicia-se com
as bem-aventuranças (5, 3-12), que são ao mesmo tempo roteiro para se implantar
o Reino de Deus e um novo modo de se encarar a vida, rompendo com o conformismo
e a alienação.
A bem-aventurança é
traduzida como caminho e fonte de felicidade. O bem-aventurado é aquele que
consegue romper com a sociedade injusta.
Quando o Homem
realmente conseguir viver e implantar as Bem-aventuranças, o Reino de Deus ira
“descer” para a Terra (Cf. Ap 21) e cabe a cada cristão colaborar com essa
missão.
As
relações de Trabalho:
Nós costumamos ver
as nossas relações de forma isolada e independente. Procuro o meu bem, sem me
preocupar com o irmão. A parábola dos trabalhadores da vinha (Cf. Mt 20, 1-16)
reflete essa situação, que muitas vezes repetimos no nosso dia a dia.
Quando eu estou
trabalhando, me preocupo com os que procuram emprego (fora os membros da minha
família)? Ou simplesmente procuro levar vantagem sobre o patrão? Ora, os
trabalhadores da parábola foram contratados, cada grupo em um horário, e com
uma promessa (exceto o último).
O primeiro grupo,
contratado de madrugada, combinou com o patrão o salário de um dia. Os outros
três grupos (9:00, 12:00 e 15:00 horas) ele prometeu pagar o que fosse justo.
Ao último grupo, após certificar-se que não eram acomodados (“por que estão ai
parados?” – Cf. Mt 20, 6b) manda-os para a vinha, sem nenhuma promessa.
Os primeiros, ao
receberem o salário combinado reclamaram, chamando o patrão de injusto, pois
eles se achavam no direito de ter vantagens, mesmo sem ter feito nada para
merece-la. E nós, nos nossos empregos e trabalhos, inclusive pastorais, não
agimos assim também?
O
Perdão no Evangelho de Mateus:
Duas passagens de
Mateus são muito importantes para nós, ao buscarmos o fim da violência na sua
raiz e ambas tem ligação com o perdão. A oração do pai-nosso (Mt 6, 9-15) Jesus
nos ensina a formula “mágica” da paz e do amor, o perdão. Mas nem assim,
expressando-se de forma direta nós conseguimos (ou queremos) compreender. Vamos
ver o exemplo de Pedro (achando que iria arrasar) pergunta a Jesus quantas
vezes devemos perdoar, e imediatamente já dá a resposta, sete, uma vez que os
doutores da Lei mandavam perdoar três vezes. Jesus mostra a nossa pequinitude e
manda perdoar infinitas vezes (7 vezes 70 = 7 x 7 x 10) e assim quebra o
rancor, a violência e a vingança,
semeada desde o código de Hamurabe ou Talião (olho por olho, dente por dente).
Perdoar, não é esquecer, é apenas não desejar vingança e não querer mau. O perdão
vai nos levar a justiça pois perdoando se é perdoado.
Os
conflitos entre o puro e o impuro:
Os conflitos de
Jesus com a sociedade judaica é marcado pela situação de dualidade, a separação
entre o puro e o impuro. Toda a sociedade judaica baseava-se em 613 preceitos,
que iam desde o guardar o sábado, até a forma de se lavar as mãos. Jesus rompe
essa situação, mostrando que Deus é amor e assim perdoa, sem nenhum tipo de
obrigação. Mas sem nunca esquecer o nosso passado (Cf. Mt 9, 1-8). Para os
judeus, o único que pode curar é Deus, e isso ocorre pelo perdão dos pecados.
Quando Jesus perdoa o sofrido aleijado,
os magistrados reclamam (sentem que podem perder o poder). Para provar
que eles estão errados, Jesus manda ao sofrido paralítico, levanta-te e vá para
a casa, mas o lembra, tome a tua cama (não esqueça que foi paralítico, que teve
um passado).
Jesus não para ai, o
conflito social e religioso é mais profundo, chega e diz diretamente ao povo o
que é impuro são as nossas atitudes e palavras, não os nossos alimentos. Isso
quer nos dizer que a vida é superior a Lei e é pela vida que daremos testemunho
de Deus.
A
Escolha:
Qual o caminho que
vamos escolher? Servir a Deus ou aos Homens? Semear justiça, paz e amor ou
injustiça, discórdia, rancor e ódio?
Mateus nos
mostra o rosto de Jesus, o Emanuel, o
Deus conosco, que caminha ao nosso lado, mas nos dá o direito de escolher a
vida ou a morte. E qual é a escolha da nossa comunidade? Será que ela já se
abriu ou permanece fechada em si, julgando pelo seu próprio critério tudo
aquilo que ela acha certo ou errado?
Sociedade
Justa:
Uma sociedade justa,
sem perseguições, sem rancor ou ódio, é uma utopia, um sonho, mas que podemos
plantar. Basta para tanto respeito e amor. Faça ao irmão aquilo que você deseja
para ti, nada mais (Cf. Mt 7, 12). Assim, vamos fazer essa utopia virar
realidade, sem injustiçados e perseguidos...
Bibliografia:
Revista Vida
Pastoral Ano XL número 204 -
Janeiro/Fevereiro 1999
O Evangelho de
Mateus e a Justiça do Reino
Pe. José
Bortolini.
Como Ler os
Evangelhos
Paulus - Félix
Moracho - Série “Como Ler...”
Bíblia Sagrada
- Pastoral/TEB/Ave Maria/Peregrino/Jerusalém.