segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Bíblia II



Formação: Catequistas

Introdução:
Neste encontro, vamos trabalhar a Bíblia, não na sua origem, mas na sua formação e no seu entendimento. Não vamos, com certeza, esgotar o assunto, mas dar uma breve pincelada sobre as Sagradas Escrituras.
Lembrando o que tratamos no nosso primeiro encontro, a Bíblia se divide em duas grandes partes, o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Na Bíblia Católica, que segue o Cânon Septuagínta (Cânon Grego), temos 46 livros no A.T. e 27 no N.T..
Para entendermos melhor as construções das Sagradas Escrituras, precisamos entender alguns pontos primordiais. Entre eles, como divide-se esses dois grandes grupos (subdivisão).

Divisão do Antigo Testamento:
O Antigo Testamento é dividido, basicamente em quatro grandes partes:
A Lei (Torá ou Torah) composta dos cinco primeiros livros da Bíblia (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt), onde cada um deles mostra uma parte da história do Povo de Deus, iniciando-se pela criação da humanidade (Gn 1-12) e do povo ou da sociedade (Gn 13-50). O livro do Êxodo mostra a Saga de Moisés e como o povo que foi para o Egito, com José, e acaba escravizado, vai sair de lá com uma nova aliança. Como recebem a Lei (Decálogo – Dez Mandamentos), a traição do projeto de Deus (Ex 32) e toda a peregrinação de 40 anos no deserto. O Livro do Levítico é um livro de Leis, normas formais para o culto e a vivência do povo de Deus, obediente aos preceitos do Senhor. O livro de Números mostra as dificuldades enfrentadas pelo povo, sob o comando de Moisés, para atravessar o deserto e chegar na terra prometida. E por fim, temos o Deuteronômio, um livro que reflete e reescreve o livro do Êxodo, com foco no livro do Levítico, no livro de Números e das experiências vividas pelo povo.
Cada um dos livros, em seus originais, tomam o seu nome da primeira palavra de cada um deles. Assim, por exemplo, Gênesis, que quer dizer inicio ou principio inicia-se com a palavra No princípio… (Cf. Gn 1,1 – Bíblia Pastoral).
Dentro dos cinco livros da lei, temos diversos Gêneros Literários (que serão tratados a frente). Na Lei, os Gêneros Literários podem aparecer muito misturados, entre os versículos. Nos outros livros, os gêneros literários são mais fortes ou presentes, conforme a classe do livro.
Além da Lei, temos ainda no Antigo Testamento, os livros proféticos (Nebiin), que mostram a atividade profética realizada por Deus através dos seus instrumentos (Profetas, cujo a tradução da palavra é aquele que fala em nome de Deus – nesse caso em nome de alguém, que por definição, para os cristãos e para os judeus é DEUS); Os livros Sapienciais (Ketumbim) que são os livros de Sabedoria, destinados a ensinar ao povo como viver; e os Históricos (Ctuvim) que são aqueles que relatam a história do povo de Deus.

Divisão do Novo Testamento:
O N.T. tem como base a História de vida de Jesus, do seu nascimento a sua ressurreição e o surgimento das primeiras comunidades e como elas se comportavam.
Podemos dividir o N.T. em partes, a exemplo do A. T., assim, teremos: quatro evangelhos (Mt, Mc, Lc e Jo); um Ato dos Apóstolos (At), escrito por um gentio (Lucas), que também escreveu um dos quatro evangelhos. Lucas, não conheceu a Jesus, era discípulo de Paulo e, aparentemente escreve um trabalho em dois volumes, o Evangelho e Atos dos Apóstolos, direcionados a um “certo” Teófilo, que a princípio pode ser considerado uma pessoa, um patrocinador, ou simplesmente uma comunidade (Teófilo significa Povo de Deus). O Evangelho de Lucas é o que tem o melhor grego dentre os Evangelhos e o seu autor é considerado como médico e historiador da sua época. Diz a lenda que Lucas escreve a anunciação com tantos detalhes pois teria conversado pessoalmente com Nossa Senhora, a mãe do Senhor.
Outro ponto importante é a questão de Paulo. Sha’ul1 (em hebraico), Saul (em grego), nascido em Tarso, atual Turquia, tem a tradução de seu nome para Saulo e depois em Latim para Paulo, deve ter nascido por volta do ano 1 d.C. (pode ter nascido até o ano 5 d.C.) e se converteu por volta dos anos 31 e 36, e sua conversão é mostrada no Livro de Atos dos Apóstolos (Cf. At 9). Ele escreveu o primeiro texto do N.T.,a Carta de São Paulo aos Galatas, por volta do ano 51. Também foi por causa de Paulo que os seguidores de Jesus passaram a ser chamados de Cristãos.
O Novo Testamento que relata a última e definitiva aliança, com a entrega de Jesus Cristo, Filho de Deus, como marco da nossa salvação, é extremamente influenciado por Paulo, pois de todos os escritos do N.T., 1/3 foi escrito por ele ou sobre ele.
Os Quatro Evangelhos também são marcados por simbolismos muito fortes, para citar alguns, temos no Evangelho de Mateus a referência ao Homem (imagem que simboliza o evangelho), pois começa com a Genealogia de Jesus. Esse evangelho deve ter sido escrito a cristãos (ou comunidades cristãs) compostas de judeus convertidos. Mostra a justificativa da Lei Mosaíca, apresentando, inclusive, os novos mandamentos (Mt 5) com as Bem Aventuranças. O Evangelho de Marcos, possivelmente o mais antigo de todos os Evangelhos Canônicos, tem como símbolo o Leão, pois o Evangelho inicia-se no Deserto, habitat dessas feras. É muito forte a tendência de se colocar o Evangelho de Marcos como sendo de Pedro, ou seja, Marcos seria João Marcos, que foi companheiro de Paulo e que o abandonou, podendo ter voltado à Jerusalém para atender a um chamado de Pedro, que prisioneiro lhe teria ditado o seu Didaque (Catequese), transformado em Evangelho. Se observarmos o Evangelho de Marcos, ele não mostra Jesus como o Senhor, ele dá pistas. Ninguém anuncia Jesus, ele precisa ser descoberto até o final, quando os guardas anunciam: “- Realmente este Homem era o filho de Deus” (Cf. Mc 15, 39b). O evangelho de Lucas tem como símbolo o Touro, pois o evangelho de Lucas inicia-se no Templo (Cf Lc1, 5-8) e por fim, o evangelho de João tem como símbolo a Águia, pois é considerado como o de Teologia mais elevada, e inicia falando que a Palavra (Jesus) era voltada para Deus, ou seja, estava no alto (Cf Jo 1, 1-4)!
Mas de onde vem esse simbolismo de animais? Temos uma visão de quatro criaturas mostradas no livro do Apocalipse de São João (Cf. Ap 4, 7-8), além do pensamento de São Jeronimo que fixou essa ideia, já presente desde o A.T. (Cf. Ez 1, 5.10).

É atribuído a João a escrita de 3 cartas, um evangelho e o Livro do Apocalipse. Quanto a autoria do Livro do Apocalipse ter sido escrito por um João, ninguém tem, ou pode ter dúvida, pois o próprio autor assina seu livro (Cf. Ap 1, 1b-2; 4 entre outras citações). Entretanto não é possível afirmar que o João que escreve as Cartas, o Evangelho e o Apocalipse seja a mesma pessoa, ao contrário, acredita-se que sejam pelo menos duas pessoas.

Citações Bíblicas:
As Sagradas Escrituras eram escritas em rolos, depois em livros, mas não existiam divisões, apenas diferenciavam os livros, mas não eram divididos em capítulos e versículos. A divisão dos capítulos é atribuída a Stephen Langton (ou Estevão Langton), clérigo inglês que tomou os espaços existentes nos rolos dos textos bíblicos, para separar os textos das Sagradas Escrituras em Capítulos, isso por volta de 1823, com a edição de uma Bíblia Vulgata (em latim, o modelo criado ou adotado por S. Jerônimo). A divisão em versículos foi mais complexa (mesmo por que não havia referência, como nos capítulos) nos textos originais. Essa divisão foi realizada ainda no século XVI, por Santes Pagnino de Lucca (†1554), que gastou 25 anos para divir o AT e o NT em versículos numerados. Depois, Roberto Estêvão, tipógrafo francês, refez a distribuição do NT no ano de 1551. Esse trabalho permitiu aos fiéis localizar os textos com muito mais facilidade.
A nomenclatura dos livros é relativamente simples. Toma-se as duas primeiras consoantes do nome do livro, dando assim a origem a sua sigla, por exemplo: Livro de Gêneses – Gn sendo que a primeira letra é maiúscula e a segunda minúscula. Alguns livros existem mais de um tomo (texto), nesse caso recebem o número à frente. Exemplo I Livro de Cronicas – I Cr. Outros livros tem as mesmas iniciais (consoantes). Para diferenciar, recebem vogais na sua sigla. Exemplo: Primeira Carta de São Paulo aos Corintios – I Cor.
Na nomenclatura teremos sempre o nome do livro, capítulo (número grande nas nossas bíblias), versículos (número pequeno nas nossas bíblias). Assim, vamos tomar como exemplo o livro de Mateus, capítulo 5 dos versículos de 1 a 12:
1 – Para o texto composto do capítulo 5, dos versículos de 1 até 12 temos a seguinte nomenclatura: Mt 5, 1-12. A vírgula separa o capítulo dos vesiculosos e o traço indica versículos contínuos.
2 – Para o texto composto do capítulo 5, versículos 1 e 12 (somente os dois) temos a seguinte nomenclatura: Mt 5, 1.12 o ponto separa os versículos 1 e 12 sem ler os de dois a 11.
3 – Para a situação onde temos combinações entre o versículo 1 até o 5 e o 12, teremos a seguinte nomenclatura: Mt 5, 1-5.12.
Lembrando que o símbolo de separação entre capítulo e versículo, principalmente utilizado por escritores não católicos é o “:” e não a “,”.
Assim, de maneira geral, temos as seguintes ferramentas de separação na nomenclatura dos livros:
, separa capítulo de versículo;
. separa partes distintas descontinuadas;
- separa partes contínuas de um texto;
; separa partes de um mesmo texto ou textos distintos;
s indica que é o versículo mais o próximo.
ss indica os versículos indicados até o final do capítulo.
Todas as ferramentas podem ser combinadas entre si, por exemplo, quando referencio um texto composto de partes distintas de um mesmo livro ou de livros diferentes (Mt 5, 1-12; Lc 6, 2-8; 15-17 – neste exemplo o meu texto refere-se aos livros de Mateus, capítulo 5 versículos de um a doze e Lucas, capítulo 6 versículos de dois a oito e quinze a dezessete).

Gênero Literário:
Em um estudo bíblico é importante saber algumas informações, entre elas o contexto histórico em que o livro ou texto foi escrito. Conhecer a história é importante para compreender o como o livro foi escrito e porque. Outro fator importante é o Gênero Literário. Conhecer o Gênero Literário auxilia na compreensão do conteúdo do texto. Por exemplo, Jesus falava muito por parábolas, esse é um gênero literário. Fábulas, epopeias, epistolar são outros gêneros literários muito presentes nas Sagradas Escrituras.
Para conhecer ou iniciar o conhecimento de um livro das Sagradas Escrituras, precisamos buscar fontes externas ou internas. Para isso, temos, nas bíblias católicas, a introdução dos livros, que buscam esclarecer o contexto histórico e os principais gêneros que permeiam o livro. Ainda assim, é importante conhecer bibliografias externas, recomendo, entre outras, a Revista Vida Pastoral, publicada bimestralmente pela Editora Paulus (que traz inclusive comentários sobre os textos das leituras dominicais), Atlas bíblico (para conhecer a região e as peculiaridades), outras publicações sobre o tema, livro ou perícope que se está estudando.

Gêneros Literários e Tradições do Pentateuco:

Podemos constar nestes textos várias tradições:
Javista (J): datada do século X a.C. e provem do reino do Sul da terra de Canaã. Essa tradição se caracteriza por chamar DEUS de Javé (YHWH). Seu modo de descrever os fatos é cheio de imagens e comparações. Por exemplo Ex 19, 16-25.

Elóista (E): datada do século IX a.C. e provem do reino do Norte. Essa tradição trata o nome de DEUS como Eloim. Usa menos imagens que o Javista. O Elóista deu mais importância ao primitivo Israel como uma comunidade Obrigada religiosa e eticamente (comportamento) pelo pacto (ou aliança) com Javé. Menos ligada à monarquia. Por exemplo: Ex 24,8.

Deuteronomista (D): Século VIII a.C.. Descobre-se essa tradição em textos que recordam ao povo que ele foi escravo no Egito. O livro do Deuteronômio começa por uma segunda narração da lei dada por Moisés. Não confundir a tradição Deuteronomista com o livro do Deuteronômio. Nesse livro descobre-se as características dessas tradições (D). Por Exemplo Dt. 13,11.

Sacerdotal (P) – Priester – data da época do exílio – desde o Gêneses até Números encontramos trechos dessa tradição. Por exemplo Ex 12; 13,16 (páscoa Israelita).
Essas tradições encontram-se misturadas na Bíblia e muitas vezes é difícil descobri-las.
Além das tradições, há formas e gêneros literários na Bíblia Hebraica. Conforme um estudioso da Bíblia, há 59 gêneros literários. Outros encontra até 200! Os estudos modernos da Bíblia distinguem por exemplo, os relatos históricos (Jz 9; I Sm 11), a saga (uns dizem que a saga é uma história não verídica, outros, aqueles que acham que a Bíblia é a Palavra de DEUS, dizem que a saga é uma história em que se condensaram as experiências de um povo). Por exemplo, Gn 21, 22-31 (estória de Abraão). O mito aparece como exemplo fragmentário dentro de outros gêneros. Por exemplo Gn 6,1-4, casamento de seres divinos com mulheres humanas. Is 14, 12-20. O conto é apenas motivo dentro de outros gêneros literários. Por exemplo: Gn 39, 7-20. A fábula por exemplo: Jz 9,8-15; II Rs 14,9; Pr 30,24-31. Novelas, por exemplo: o livro de Jonas e de Rute. A pregação, a exortação (a apocalíptica), a confissão, a parábola, a comparação, a metáfora, o oráculo profético, a lei, a máxima sapiencial, o provérbio, o enigma (Jz 14,14; Pr 1,6), o discurso, o contrato, a lista, o cântico. 2
Essas são apenas algumas formas e gêneros literários.
Na leitura da Bíblia você pode se defrontar com algum versículo obscuro ou difícil de entender, pode ocorrer que a explicação seja encontrada no tipo de tradição ou gênero literário.
Quanto as dez pragas do Egito, alguns estudiosos só mencionam 6 ou 7 em seus comentários. A praga dos Primogênitos não é comentada. Por que? Ela não aparece em nenhum texto fora da Bíblia, por exemplo, não consta na história do Egito que tenha ocorrido tal calamidade. Um acréscimo da tradição sacerdotal (P), bem posterior ao texto JAVISTA das demais pragas.
Os estudiosos dizem hoje que nesse relato há dois núcleos: um histórico e um núcleo teológico cúltico. Segundo S. Jerônimo, citando uma tradição antiga judaica, naquela noite celebrava-se entre os egípcios a “festa da apresentação dos primogênitos” nos templos deles. Os templos egípcios perceberam um terremoto naquela noite. Com o terremoto, pereceram os deuses egípcios e os que os adoravam. Há outras interpretações, por exemplo, que os chefes hebreus tenham matado os egípcios. No entanto, não há registro histórico de tal fato.
O núcleo teológico cúltico conta que a partir da libertação do Egito, o povo de Israel deve ter consciência de que é ele o “primogênito” de DEUS. A eliminação dos primogênitos egípcios é o sinal dessa escolha. Como lembrança dessa pertença a DEUS, Israel deverá consagrar-lhe todos os primogênitos, quer dos homens, quer dos animais. São Paulo vai falar de Cristo, como o Primogênito de toda criatura. Diferentemente dos cultos pagãos, os primogênitos de Israel não devem ser sacrificados, mas “santificados”, isto é, separados, consagrados ao Senhor. Com esse rito Cúltico-Teólogico o texto do êxodo quer sublinhar que DEUS é o autor e defensor da vida. Ele não quer a morte de ninguém.

1Sha’ul em hebraico antigo (traduzido para o nosso alfabeto) tem como sentido da palavra “o que se pediu, o que se orou por”
2 Todos os gêneros apresentados, aparecem tanto em poesia como em prosa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário