quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Campanha da Fraternidade

I. Campanhas da Fraternidade:
Em 1961, três padres responsáveis pela Cáritas Brasileira idealizaram uma campanha para arrecadar fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la autônoma financeiramente. A atividade foi chamada Campanha da Fraternidade e realizada pela primeira vez na quaresma de 1962, em Natal-RN, com adesão de outras três Dioceses e apoio financeiro dos Bispos norte-americanos. No ano seguinte, 16 Dioceses do Nordeste realizaram a campanha. Não teve êxito financeiro, mas foi o embrião de um projeto anual dos Organismos Nacionais da CNBB e das Igrejas Particulares no Brasil, realizado à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral (Evangelizadora) da Igreja em nosso País.
Em seu início, teve destacada atuação o Secretariado Nacional de Ação Social da CNBB, sob cuja dependência estava a Cáritas Brasileira, que fora fundada no Brasil em 1957. Na época, o responsável pelo Secretariado de Ação Social era Dom Eugênio de Araújo Sales, e por isso, Presidente da Cáritas Brasileira. O fato de ser Administrador Apostólico de Natal-RN explica que a Campanha tenha iniciado naquela circunscrição eclesiástica e em todo o Rio Grande do Norte.
Este projeto foi lançado, em nível nacional, no dia 26 de dezembro de 1963, sob o impulso renovador do espírito do Concílio Vaticano II, em andamento na época, e realizado pela primeira vez na quaresma de 1964. O tempo do Concílio foi fundamental para a concepção e estruturação da Campanha da Fraternidade, bem como o Plano Pastoral de Emergência e o Plano de Pastoral de Conjunto, enfim, para o desencadeamento da Pastoral Orgânica e outras iniciativas de renovação eclesial. Ao longo de quatro anos seguidos, por um período extenso em cada um, os Bispos ficaram hospedados na mesma casa, em Roma, participando das sessões do Concílio e de diversos momentos de reunião, estudo, troca de experiências. Nesse contexto, nasceu e cresceu a Campanha da Fraternidade.
Em 20 de dezembro de 1964, os Bispos aprovaram o fundamento inicial da mesma intitulado: "Campanha da Fraternidade - Pontos Fundamentais apreciados pelo Episcopado em Roma". Em 1965, tanto Cáritas quanto Campanha da Fraternidade, que estavam vinculadas ao Secretariado Nacional de Ação Social, foram vinculadas diretamente ao Secretariado Geral da CNBB. A CNBB passou a assumir a CF. Nesta transição, foi estabelecida a estruturação básica da CF. Em 1967, começou a ser redigido um subsídio maior que os anteriores para a organização anual da CF. Nesse mesmo ano iniciaram também os encontros nacionais das Coordenações Nacional e Regionais da CF. A partir de 1971, participam deles também a Presidência e a Comissão Episcopal de Pastoral.
Em 1970, a CF ganhou um especial e significativo apoio: a mensagem do Papa em rádio e televisão em sua abertura, na quarta-feira de cinzas. A mensagem papal continua enriquecendo a abertura da CF.
De 1963 até hoje, a Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização desenvolvida num determinado tempo (quaresma), para ajudar os cristãos e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos concretos no processo de transformação da sociedade a partir de um problema específico que exige a participação de todos na sua solução. É grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, renovação interior e ação comunitária como a verdadeira penitência que Deus quer de nós em preparação da Páscoa. É momento de conversão, de prática de gestos concretos de fraternidade, de exercício de pastoral de conjunto em prol da transformação de situações injustas e não cristãs. É precioso meio para a evangelização do tempo quaresmal, retomando a pregação dos profetas confirmada por Cristo, segundo a qual a verdadeira penitência que agrada a Deus é repartir o pão com quem tem fome, dar de vestir ao maltrapilho, libertar os oprimidos, promover a todos.
A Campanha da Fraternidade tornou-se especial manifestação de evangelização libertadora, provocando, ao mesmo tempo, a renovação da vida da Igreja e a transformação da sociedade, a partir de problemas específicos, tratados à luz do Projeto de Deus.
A Campanha da Fraternidade tem como objetivos permanentes: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na Evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja; daí o destino da coleta final: realização de projetos de caridade libertadora e manutenção da ação pastoral).
- A proposta litúrgica na quaresma e a CF
A Campanha da Fraternidade é realizada durante a quaresma e para aprofundar o espírito quaresmal. A Campanha é um meio a serviço da evangelização em vista de novas relações fraternas, de compromisso com a justiça social. Não é a quaresma que realiza a Campanha da Fraternidade.
A reflexão da temática da Campanha da Fraternidade, por outro lado, não pode ficar restrita aos momentos litúrgicos. A promoção e a vivência da Campanha devem acontecer também na catequese, nos encontros de grupos de famílias, nos meios de comunicação social, em mesas-redondas, em palestras, seminários e cursos.
Naturalmente, as celebrações litúrgicas - não só a celebração eucarística - são momentos privilegiados para repercutir o que as pessoas e os grupos aprofundaram sobre a Campanha e ao mesmo tempo para iluminar e desencadear os passos seguintes. Desta forma, a CF não é algo paralelo à quaresma, nem algo que a relega a segundo plano. Ela é um modo criativo de a Igreja no Brasil celebrar a quaresma em preparação à Páscoa. Ela dá ao tempo quaresmal uma dimensão histórica, humana, encarnada, comprometida com a caminhada libertadora de nosso povo na Páscoa do Senhor.
Os temas da CF no seu contexto histórico
A Campanha da Fraternidade surgiu durante o desenvolvimento do Concílio Vaticano II. O primeiro documento conciliar aprovado foi sobre a Liturgia. O documento Lumen Gentium, constituição dogmática, sobre a Igreja - sua natureza e sua missão evangelizadora - foi também dos primeiros documentos refletidos e aprovados pelo Concílio. O documento Gaudium et Spes, constituição pastoral, sobre a Igreja no mundo de hoje - sua presença transformadora , surgiu de um discurso do Cardeal Suenens no final da primeira sessão. Foi aprovado no final do Concílio.
A primeira das Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano após o período conciliar, em Medellín, 1968, foi convocada para a implementação do Concílio no Continente. A reflexão sobre a realidade latino-americana levou a Igreja a enfrentar o desafio da pobreza e da urgente presença transformadora nas estruturas sociais. A Conferência de Puebla, dez anos depois, acentuou ainda mais a dimensão social da fé e da vivência cristã, a fim de se superar a situação de marginalização, opressão e exclusão em que vive a maioria do povo, e criar comunhão e participação.
Os temas da Campanha da Fraternidade, inicialmente, também contemplaram mais a vida interna da Igreja. A consciência sempre maior da realidade sócio-econômico-política, marcada pela injustiça, pela exclusão, por índices sempre mais altos de miséria, fez escolher como temas da Campanha aspectos bem determinados desta realidade em que a Fraternidade está ferida e cujo restabelecimento é compromisso urgente da fé. A partir do início dos encontros nacionais sobre a CF, em 1971, a escolha de seus temas vem tendo sempre mais ampla participação dos 16 Regionais da CNBB que recolhem sugestões das Dioceses e estas das paróquias e comunidades.
Alguns pontos de referência na escolha dos temas são:
- Aspectos da vida da Igreja e da sociedade (eventos especiais, como centenário da Rerum Novarum em 1991 - Solidários na Dignidade do Trabalho; ano da família em 1994 - A Família, como vai?);
- Desafios sociais, econômicos, políticos, culturais e religiosos da realidade brasileira;
- As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e documentos do Magistério da Igreja Universal;
- A Palavra de Deus e as exigências da Quaresma.

Ao longo dos mais de trinta anos, podem ser destacadas as seguintes fases nos seus temas:

 1a FASE: EM BUSCA DA RENOVAÇÃO INTERNA DA IGREJA

1) Renovação da Igreja

CF-64
Tema: Igreja em Renovação
CF-66Lema: Lembre-se: você também é Igreja

CF-65
Tema: Paróquia em Renovação
Lema: Faça de sua paróquia uma Comunidade de fé, culto e amor

2) Renovação do Cristão

CF-66
Tema: Fraternidade
Lema: Somos responsáveis uns pelos outros

CF-67
Tema: Co-responsabilidade
Lema: Somos todos iguais, somos todos irmãos

CF-68
Tema: Doação
Lema: Crer com as mãos

CF-69
Tema: Descoberta
Lema: Para o outro, o próximo é você

CF-70
Tema: Participação
Lema: Participar

CF-71
Tema: Reconciliação
Lema: Reconciliar

CF-72
Tema: Serviço e Vocação
Lema: Descubra a felicidade de servir


2a FASE: A IGREJA PREOCUPA-SE COM A REALIDADE SOCIEAL DO POVO, DENUNCIANDO O PECADO SOCIAL E PROMOVENDO A JUSTIÇA (VATICANO II, MEDELLÍN E PUEBLA)

CF-73
Tema: Fraternidade e Libertação
Lema: O egoísmo escraviza, o amor liberta

CF-74
Tema: Reconstruir a Vida
Lema: Onde está teu irmão?

CF-75
Tema: Fraternidade é Repartir
Lema: Repartir o Pão

CF-76
Tema: Fraternidade e Comunidade
Lema: Caminhar juntos

CF-77
Tema: Fraternidade na Família
Lema: Comece em sua casa

CF-78
Tema: Fraternidade no Mundo do Trabalho
Lema: Trabalho e justiça para todos

CF-79
Tema: Por um mundo mais humano
Lema: Preserve o que é de todos

CF-80
Tema: Fraternidade no mundo das Migrações Exigência da Eucaristia
Lema: Para onde vais?

CF-81
Tema: Saúde e Fraternidade
Lema: Saúde para todos

CF-82
Tema: Educação e Fraternidade
Lema: A verdade vos libertará

CF-83
Tema: Fraternidade e Violência
Lema: Fraternidade sim, violência não

CF-84
Tema: Fraternidade e Vida
Lema: Para que todos tenham Vida

3a FASE: A IGREJA VOLTA-SE PARA SITUAÇÕES EXISTENCIAIS DO POVO BRASILEIRO

CF-85
Tema: Fraternidade e fome
Lema: Pão para quem tem fome

CF-86
Tema: Fraternidade e terra
Lema: Terra de Deus, terra de irmãos

CF-87
Tema: A Fraternidade e o Menor
Lema: Quem acolhe o menor, a Mim acolhe

CF-88
Tema: A Fraternidade e o Negro
Lema: Ouvi o clamor deste povo!

CF-89
Tema: A Fraternidade e a Comunicação
Lema: Comunicação para a verdade e a paz

CF-90
Tema: A Fraternidade e a Mulher
Lema: Mulher e homem: imagem de Deus

CF-91
Tema: A Fraternidade e o Mundo do Trabalho
Lema: Solidários na dignidade do trabalho

CF-92
Tema: Fraternidade e Juventude
Lema: Juventude - caminho aberto

CF-93
Tema: Fraternidade e Moradia
Lema: Onde moras?

CF-94
Tema: A Fraternidade e a Família
Lema: A família, como vai?

CF-95
Tema: A Fraternidade e os Excluídos
Lema: Eras tu, Senhor?

CF-96
Tema: A Fraternidade e a Política
Lema: Justiça e paz se abraçarão!

CF-97
Tema: A Fraternidade e os Encarcerados.
Lema: Cristo Liberta de todas as Prisões!

CF-98
Tema: A Fraternidade e a Educação.
Lema: A Serviço da Vida e da Esperança!

CF-99
Tema: Fraternidade e os Desempregados.
Lema: Sem Trabalho? Por que?

No ano 2000, iniciou-se uma experiência que marcou a década 00, a campanha de 2000 foi Ecumênica, marcada por mudanças de visão e até de elaboração dos documentos.

CF-2000
Tema: Ecumênica – Dignidade Humana e Paz.
Lema: Novo Milênio se Exclusões.

CF-2001
Tema: Vida Sim!
Lema: Drogas não!
Essa campanha foi elaborada pela pastoral da juventude, com um tema que levou uma realidade difícil para dentro do dia a dia das comunidades.

CF-2002
Tema: Fraternidade e Povos Indígenas.
Lema: Por Uma Terra Sem Males.

CF-2003
Tema: Fraternidade e a Pessoa Idosa.
Lema: Vida, Dignidade e Esperança!

CF-2004
Tema: Fraternidade e Água.
Lema: Água, Fonte de Vida!

CF-2005
Tema: Ecumênica - Solidariedade e Paz
Lema: Felizes os que Promovem a Paz!

CF-2006
Tema: Fraternidade e Pessoas Com Deficiências.
Lema: Levanta-te e Vem Para o Meio!

CF-2007
Tema: Fraternidade e Amazônia.
Lema: Vida e Missão nesse Chão!

CF-2008
Tema: Fraternidade e Defesa da Vida.
Lema: Escolhe Pois a Vida! (Dt 30,19-B)
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II. C. F. 2000 - Ecumenica:
A Campanha da Fraternidade do ano 2000, o ano Jubilar, e do ano 2005 foram feitas a “sete mãos”, com apoio e ações conjuntas do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), que congrega sete denominações Cristãs (Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Cristã Reformada do Brasil, Igreja Episcopal Anglicana, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Metodista, Igreja Ortodoxa Sirian do Brasil e Igreja Presbiteriana Unida). Devemos entender, antes de tudo, que não foram campanhas sobre o Ecumenismo, é sim campanhas com a colaboração de outras comunidades que professam Jesus Cristo como o Senhor, e desejam como nós que o Reino de Deus se faça presente.
A campanha da Fraternidade de 2000 foi um divisor de águas, a partir desse ano várias comunidades passaram a ver e viver o ecumenismo de forma mais aberta e verdadeira e não como um simples ato de bondade.

Bibliografia: http://www.cf.org.br/natureza3.php consultado em 01/02/2007;

Manual da CF 2000 e 2007 editora Salesiana

Complementando, gostaria lembrar que este texto foi utilizado como síntese de um encontro de catequese, mas a campanha da fraternidade de 2005 também foi no formato Ecumênico, e a campanha deste ano, 2016, busca o resgate do ser humano quando ao seu meio, através da necessidade de implantação de rede coletora de esgoto a fim de que se busque a dignidade humana, refletida na saúde publica!

Boa Quaresma para todos!

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